quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O fim de um incógnito político que prejudicaram as artes marciais na Capital Gaúcha.



Foto comemorativa da assinatura da Lei Municipal 12.004/16
É muito comum para nós praticantes de artes marciais terem que explicar para quem não conhece que UFC é apenas um evento e não um estilo de combate.
Agora, imagine que até 2015 caso tu realizes eventos de Karatê, Judô, Taekwondo, Wushu e Kendo na cidade de Porto Alegre, sabia que estaria infringindo a lei municipal 8.138/1998 que proíbe a realização de eventos de “Vale Tudo” na capital?
Mas, o que eventos de Vale Tudo tem a ver com nossas competições de arte marcial; isso sem mencionar que o termo “Vale Tudo” há muito tempo passou a se chamar “Mixed Martial Arts” ou a sigla MMA? Por mais que você tente entender onde está a lógica por trás disto tudo, saiba como foi criada a Lei Municipal 8.138/1998, quais as consequências para as entidades locais de artes marciais na cidade de Porto Alegre, e toda a batalha judicial para impedir que uma lei equivocada prejudicasse a realização de torneios oficiais de artes marciais na capital até finalmente surgir a votação da Lei Municipal 12.004/16 que devolve Porto Alegre na rota das competições oficiais favorecendo o turismo e a renda do comercio.

Surgimento do Vale Tudo.

Tudo começa em meados do século XX quando Carlos Gracie resolveu promover o “Gracie Challenge” um evento criado especialmente para promover o recém-criado Jiu-Jitsu brasileiro onde mestres de outras artes marciais eram desafiados para uma luta sem regras, a partir disso o evento ficou conhecido como “Vale-Tudo”.
Entretanto, foi em 1993 que o Vale-Tudo passa a ganhar destaque, quando Rorion Gracie e Art Davie promovem o primeiro The Ultimate Fighter com transmissão via Pay-per-view, seguindo exatamente as mesmas propostas do “Gracie Challenge” em uma luta de artes marciais sem regras e sem categoria de peso, tendo como novidade um octógono substituindo o velho conceito de ringue. O conceito de Artes Marciais Mistas ou a sigla em inglês de “MMA” ficou mais conhecido após a trajetória de Marco Ruas vencer suas lutas utilizando mais de uma arte marcial variando entre trocações de golpes em pé ou lutas em solo, surgiu então um divisor de aguas.

Os perigos de eventos não oficiais e intervenções políticas.

O evento criado em 1993 era apenas para ser único no mundo, entretanto o sucesso de compras em Pay-Per-View permitiu que mais novos eventos de “Vale Tudo” surgissem e no embalo do sucesso, novos eventos concorrentes foram surgindo como o K-1, o Strikeforce, Pride e similares, no Brasil e no mundo, também começaram a surgir torneios não oficiais de MMA que por conta do não profissionalismo foram registrados casos de fatalidades dividindo a opinião pública entre a formulação de regras seguras e o banimento dos eventos.
O então vice prefeito Sebastião Melo (PMDB) assina a Lei 12.004/16
Nos EUA, o Senador Jhon McCain condenou veemente os eventos de MMA exigindo que fossem banidos em todos os cinquenta estados americanos por conta das regras limitadas, mobilizando os organizadores a criar categorias e mudanças de regras para a manutenção dos eventos. 
E em Porto Alegre, o medo de que pessoas se machuquem seriamente em eventos não oficiais e a fama desenfreada do “Vale Tudo” auxiliado pela mídia não especializada, fez que a Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovassem uma lei que proibia eventos de Vale Tudo na capital. O problema é que o proponente da lei certamente nunca consultou as federações e associações de Taekwondo, Judô, Karatê, Kendo, Jiu Jitsu e Wushu ignorando completamente as diferenças entre eventos organizados com regras internacionais e um evento distinto que ainda se encaminhava para o profissionalismo, tanto que o termo Vale-Tudo caiu no esquecimento quando passou a se chamar “MMA”.
A Lei Municipal 8.138/1998 (cuja a autoria e o texto não foram possíveis encontrar no site oficial) proibia eventos de artes marciais em ginásios municipais da capital, fazendo que federações e associações de artes marciais não vinculadas com o MMA, tivessem que apresentar recursos suspensivos da lei para realizarem seus eventos ou então contratar ginásios particulares, gerando custas ou abandono de sediar eventos de artes marciais na Capital. A Lei Municipal 8.138/1998 cumpriu seu papel em impedir que eventos de Vale Tudo fossem realizados em Porto Alegre; em compensação, a cidade ficou impedida de sediar torneios oficiais e internacionais de artes marciais que não tem relação alguma com o agora UFC que é completamente independente e privado. 


O resultado desastroso de uma Lei simplória e equivocada.

A total falta de discernimento e desconhecimento de quem promoveu a Lei Municipal 8.138/1998 atingiu em cheio as entidades locais de artes marciais e sem saber, prejudicou o turismo e a economia da Capital; citando como exemplo a original Copa Mercosul de Taekwondo, que convidava federações de Taekwondo da Argentina, Brasil e Uruguai que por intervenção equivocada do proponente do texto, passou a ser transferido às pressas em Capão da Canoa movimentando a economia da cidade acostumada com a temporada de Verão no litoral. A Lei Municipal 8.138/1998 baseado em boas intenções acabou sendo um total desserviço para o turismo e para os praticantes de modalidades marciais que se tornaram olímpicas, prejudicando até o Boxe olímpico que nem arte marcial é, uma lei atrasada que prejudicou as artes marciais por conta de uma palavra que nem existia mais criada por pessoas completamente leigas no assunto.

A vitória da Lei Municipal 12.004/16.

Instrutores e membros do SoAMA posando com a nova Lei
O Vale-Tudo não existia mais e os campeonatos regionais de artes marciais não podiam ser sediados em Porto Alegre – desde que via liminares suspensivas ou ginásios privados; e a Lei Municipal 8.138/1998 continuava obsoleta e até ignorada (só sendo redescoberta quando alguém pretendia sediar um evento de lutas em Porto Alegre), e foi com a iniciativa de instrutores locais de Taekwondo, Hapkido, Kickboxing, Boxe, Muaythai, Karatê, Judô, Kung Fu e Haedong Kumdo com o apoio do ex-vereador Waldir Canal (PRB) apresentaram o projeto de lei nº 182/15 que altera a Lei equivocada permitindo que Porto Alegre volte a realizar eventos de combate.
A votação foi unânime e com poucas restrições, mas a Lei Municipal 12.004/16 foi aprovada e Porto Alegre pode finalmente voltar a sediar competições com bases em suas regras sem generalizações. Entre os responsáveis por essa luta está representado pelos membros do SoAMA como o professor Bruno Oliveira e o idealizador do grupo professor Wellington Jr.
Instrutores comemoram a vitória após anos de equívocos e injustiças.

Nenhum comentário:

Postar um comentário